Às margens do rio Carrión, no coração da meseta de Castela e Leão, Palência é uma daquelas capitais espanholas que passam despercebidas no roteiro óbvio e justamente por isso recompensam quem chega. Sua catedral gótica é tão imponente e tão pouco visitada que ganhou o apelido de “La Bella Desconocida” (a Bela Desconhecida), e do alto de uma colina nos arredores um Cristo gigante de pedra, obra do escultor Victorio Macho, vigia a cidade como poucos monumentos religiosos do mundo. Some a isso a Calle Mayor com seus quilômetros de arcadas, o Canal de Castela cortando a planície e o melhor do românico espanhol espalhado pela província, e você tem um destino sério para quem gosta de história sem multidões.
Onde fica Palência
Palência é a capital da província de mesmo nome, na comunidade autônoma de Castela e Leão, no norte-centro da Espanha. Fica cerca de 50 km ao norte de Valladolid e a pouco mais de 200 km de Madri, na região histórica conhecida como Tierra de Campos — uma vasta planície de trigo que já foi chamada de “celeiro de Castela”. A cidade se estende ao longo do rio Carrión, e seu tamanho modesto (algo em torno de 75 mil habitantes) faz com que praticamente tudo o que interessa ao visitante esteja a uma caminhada de distância no centro histórico. Vale não confundir: nada a ver com Valência, no litoral mediterrâneo, nem com Plasência, na Estremadura. Aqui o clima é continental e a paisagem é de interior castelhano.
O que fazer em Palência
O centro de Palência se explora a pé, e os principais marcos estão a poucos minutos uns dos outros:
- Catedral de San Antolín — a “Bela Desconhecida” é o cartão de visita da cidade. Erguida sobretudo entre os séculos XIV e XVI, mistura gótico e renascentista e guarda no subsolo uma cripta visigótica e românica, uma das mais antigas da Espanha, ligada às relíquias de San Antolín, padroeiro de Palência. Não deixe de descer até a cripta e de observar o retábulo-mor e as obras de arte do interior.
- Cristo del Otero — no alto de um cerro a oeste do centro, esta estátua monumental de Cristo com cerca de 20 metros de altura é uma das maiores do mundo. Foi esculpida por Victorio Macho nos anos 1930 e, da sua base, abre-se a melhor vista panorâmica da cidade e da planície ao redor. Aos pés do morro há uma pequena ermida e o museu dedicado ao artista.
- Calle Mayor — a longa rua principal, em boa parte coberta por arcadas (soportales), é o eixo da vida palentina. É onde os moradores fazem o “paseo” no fim da tarde, entre cafés, lojas e edifícios senhoriais.
- Iglesia de San Miguel — templo gótico à beira do Carrión, com uma torre marcante. Segundo a tradição local, foi ali que El Cid teria se casado com Dona Jimena.
- Museu de Palência e Casa-Museo Victorio Macho — para quem quer entender a história arqueológica da região e a obra do escultor que marcou a cidade.
Reserve também um tempo para caminhar pela margem do rio Carrión, no parque conhecido como Sotillo de los Canónigos e Jardinillos de la Estación, áreas verdes agradáveis que mostram o lado tranquilo e arborizado da cidade.
O Canal de Castela e o românico da província
Um dos grandes trunfos de Palência está fora dos muros da cidade. O Canal de Castela, obra de engenharia hidráulica iniciada no século XVIII para transportar trigo pela meseta, atravessa a província e hoje pode ser percorrido a pé, de bicicleta ou em passeios de barco turísticos, especialmente no trecho de Villaumbrales, onde funciona um museu dedicado ao canal.
A província de Palência é ainda um dos epicentros do românico espanhol. No norte da província, a chamada Montaña Palentina concentra dezenas de igrejas e ermidas dos séculos XI e XII. Vale a pena reservar um ou dois dias para conhecer:
- Frómista — a igreja de San Martín de Tours é considerada uma das obras-primas do românico europeu, com proporções perfeitas e centenas de canecillos esculpidos. Fica em pleno Caminho de Santiago.
- Aguilar de Campoo — vila medieval cercada de muralhas, com mosteiro de Santa María la Real e a base do Centro de Estudos do Românico; é também conhecida pela tradição da fabricação de biscoitos.
- Carrión de los Condes — outra parada clássica do Caminho de Santiago, com igrejas românicas e o monastério de San Zoilo.
Gastronomia palentina
A cozinha de Palência é castelhana de raiz: contundente, de forno a lenha e produtos da terra. O prato-símbolo é o lechazo asado, cordeiro leitão assado lentamente em forno de barro, geralmente acompanhado de salada simples e bom pão. Prove também a morcilla (uma versão local do chouriço de sangue com arroz), os pichones (pombos) da Tierra de Campos, queijos de ovelha e os doces de Aguilar de Campoo. Tudo isso costuma vir bem acompanhado pelos vinhos tintos do entorno castelhano, como os das vizinhas denominações Cigales e Arlanza. Para comer de forma descontraída, a melhor pedida é o ritual dos pinchos nos bares do centro, especialmente nas ruas em torno da Calle Mayor.
Melhor época para visitar Palência
Palência tem clima continental, com invernos frios (geadas e ocasionais nevadas) e verões quentes e secos, típicos do interior de Castela. As melhores épocas para visitar são a primavera (abril a junho) e o início do outono (setembro e outubro), quando os dias são amenos e a luz sobre a planície fica especialmente bonita. O verão é ótimo para os passeios de barco no Canal de Castela e para percorrer o Caminho de Santiago, embora o meio-dia possa ser bem quente. Quem viaja no início de setembro pega as festas de San Antolín, o padroeiro, período de maior animação na cidade.
Como chegar a Palência
O jeito mais prático de chegar a Palência é de trem. A cidade é um importante nó ferroviário no norte da Espanha e está conectada por trens de alta velocidade e média distância a Madri (cerca de 1h30 a 2h), Valladolid (menos de 30 minutos) e a destinos do norte como Burgos, León e Santander. A estação fica a poucos minutos de caminhada do centro histórico.
De carro, Palência é facilmente acessível pelas autovias que cruzam Castela e Leão, o que a torna uma ótima base ou parada para quem está fazendo um roteiro pelo norte da Espanha. Não há aeroporto na cidade: os mais úteis são o de Valladolid, a cerca de 50 km, e o de Madri-Barajas, principal porta de entrada internacional, de onde se segue de trem ou carro. Para explorar a província — o Canal de Castela e as igrejas românicas da Montaña Palentina —, ter um carro faz bastante diferença, já que muitos vilarejos têm transporte público limitado.
Vale a pena visitar Palência?
Vale, e muito, para o tipo certo de viajante. Palência não é um destino de cartão-postal famoso, mas é exatamente isso que a torna interessante: uma capital castelhana autêntica, com uma catedral subestimada, um Cristo monumental sobre a planície, boa mesa e uma das maiores concentrações de arte românica da Europa logo ao lado. Encaixa muito bem em um roteiro pelo norte da Espanha — combinada com Valladolid, Burgos ou um trecho do Caminho de Santiago — e oferece aquela sensação cada vez mais rara de descobrir uma cidade espanhola de verdade, sem disputar espaço com excursões.
