Foi numa faixa de areia chamada Côte des Basques que a Europa viu suas primeiras pranchas de surfe deslizarem nas ondas, no começo dos anos 1950 — e Biarritz nunca mais largou esse posto de capital europeia do esporte. Mas reduzir a cidade a surfe é injusto: encravada no País Basco francês, a poucos quilômetros da fronteira com a Espanha, ela mistura o glamour antigo de balneário imperial (foi aqui que Napoleão III mandou erguer um palácio para a imperatriz Eugénie) com penhascos batidos pelo Atlântico, um porto de pescadores que já caçou baleias e a melhor gastronomia basca deste lado dos Pirineus.
Onde fica Biarritz e por que ela é diferente
Biarritz fica no extremo sudoeste da França, no departamento dos Pirineus Atlânticos (Pyrénées-Atlantiques), banhada pelo Golfo da Biscaia. Forma um trio quase colado com as vizinhas Anglet e Bayonne (o chamado BAB), e está a cerca de 35 km da espanhola San Sebastián. O que a distingue de outros balneários franceses é justamente a alma basca: você verá a língua basca (euskara) nas placas, a cor vermelha e branca nas fachadas das casas, o frontão de pelota basca em quase todo vilarejo e um sotaque gastronômico que tem mais a ver com o norte da Espanha do que com Paris. A cidade cresceu como destino de banhos de mar no século XIX, e esse passado aristocrático ainda aparece nos hotéis grandiosos e nas villas debruçadas sobre o oceano.
O que fazer em Biarritz
O cartão-postal absoluto da cidade é o Rocher de la Vierge (Rochedo da Virgem), um penhasco no mar ligado à terra por uma passarela de ferro projetada no ateliê de Gustave Eiffel. No topo, uma estátua da Virgem observa o Atlântico, e nos dias de mar agitado as ondas explodem contra as rochas num espetáculo e tanto. Bem ao lado fica o Port des Pêcheurs, um pitoresco porto de pescadores encaixado entre falésias, com casinhas coloridas e pequenos restaurantes de frutos do mar — o melhor lugar para terminar a tarde.
Some a isso os outros imperdíveis:
- Grande Plage — a praia central, larga e moldurada pelo casarão do antigo cassino art déco e pela silhueta do Hôtel du Palais, o palácio que Napoleão III construiu para Eugénie em 1855.
- Phare de Biarritz — o farol de 1834 sobre a Pointe Saint-Martin; quem encara os 248 degraus é recompensado com uma vista que vai da costa das Landas até as montanhas do País Basco.
- Aquarium de Biarritz — o Musée de la Mer, num belo prédio art déco, exibe tubarões e focas alimentadas em horário marcado, ótimo programa para quem viaja com crianças.
- Les Halles — o mercado coberto da cidade, ponto de encontro pela manhã para provar presunto de Bayonne, queijos de ovelha dos Pirineus, ostras de Arcachon e um copo de vinho da região do Irouléguy.
- Chapelle Impériale — pequena capela de 1864 mandada erguer por Eugénie, com uma arquitetura neomudéjar de inspiração hispano-mourisca pouco comum na França.
As praias de Biarritz e o surfe
Cada praia da cidade tem uma personalidade. A já citada Côte des Basques, no sul, é a queridinha dos surfistas e tem o cenário mais dramático: na maré baixa, a areia se estende sob falésias verdes, mas atenção, porque na maré alta ela praticamente desaparece. A Grande Plage é a mais movimentada e central, ideal para quem quer ficar perto de tudo. Mais ao norte, a Plage Miramar é uma continuação tranquila da Grande Plage, e seguindo pela costa você chega às extensas praias de Anglet, com faixas de areia mais largas e vários picos de surfe.
Biarritz é um ótimo lugar para ter a primeira aula de surfe: há dezenas de escolas com instrutores e equipamento, e a Côte des Basques costuma ter ondas amigáveis para iniciantes em dias de mar calmo. Quem só quer nadar deve respeitar as bandeiras e nadar entre os postos vigiados — o Atlântico aqui é frio e as correntes podem ser fortes. Mesmo no auge do verão, a água raramente passa dos 22°C, então um traje de neoprene faz diferença para passar mais tempo no mar.
Gastronomia basca: o que comer em Biarritz
Comer bem é parte central de uma visita a Biarritz, e a cozinha basca tem identidade forte. Comece pelo jambon de Bayonne, o presunto cru curado da região, e pela piperade, um refogado de pimentões, tomate e a célebre pimenta de Espelette, que dá um toque levemente picante a quase tudo por aqui. Nos restaurantes de frutos do mar, procure o ttoro, ensopada de peixe e marisco típica da costa basca, e o axoa, picadinho de vitela com pimentões originário de Espelette.
Na hora do doce, o gâteau basque — bolo de massa amanteigada recheado com creme ou com geleia de cereja negra de Itxassou — é a sobremesa-símbolo. E a região tem uma relação antiga com o chocolate: foram judeus sefarditas expulsos da Espanha que trouxeram a tradição chocolateira para a vizinha Bayonne, considerada um dos berços do chocolate na França. Para acompanhar as refeições, vale provar os vinhos de Irouléguy, a pequena denominação dos vinhedos bascos no sopé dos Pirineus.
Arredores: bate e volta a partir de Biarritz
Biarritz é uma base excelente para explorar o País Basco dos dois lados da fronteira. A poucos minutos estão alguns dos lugares mais bonitos da região:
- Bayonne (a 9 km) — capital cultural do País Basco francês, com a catedral gótica de Sainte-Marie, as casas de enxaimel coloridas à beira do rio Nive e as melhores chocolaterias da região.
- Saint-Jean-de-Luz (a 15 km) — antiga vila de pescadores de baleias, com uma baía protegida ótima para banho, um centro histórico encantador e a igreja onde Luís XIV se casou em 1660.
- Espelette — o vilarejo das pimentas vermelhas penduradas nas fachadas brancas; em outubro acontece a famosa festa da pimenta.
- San Sebastián (a cerca de 35 km, já na Espanha) — uma das capitais mundiais da gastronomia, com a baía de La Concha e bares de pintxos imperdíveis na Parte Vieja.
Melhor época para visitar Biarritz
O verão (de junho a setembro) é a alta temporada: dias longos, mar mais convidativo e a cidade em plena efervescência, com festivais e a orla cheia. É a melhor época para praia e surfe, mas também a mais cara e movimentada, especialmente em julho e agosto, quando muitos franceses e espanhóis tiram férias. Quem prefere tranquilidade e bons preços encontra o seu momento na primavera (maio e junho) e no início do outono (setembro e início de outubro), quando o clima ainda é ameno e as praias, mais vazias. O inverno é suave, mas chuvoso e de mar bravo — justamente por isso atrai surfistas experientes em busca das ondas grandes da costa basca.
Como chegar a Biarritz
A forma mais rápida é pelo Aeroporto de Biarritz-País Basco (BIQ), a cerca de 10 minutos do centro, que recebe voos de Paris e de várias cidades europeias. De trem, Biarritz é bem conectada: o TGV liga Paris à cidade em torno de 4 a 5 horas, e a estação fica a poucos quilômetros do centro. De carro, a cidade está sobre a autoestrada A63, a cerca de 2 horas de Bordeaux e menos de 1 hora de San Sebastián, o que facilita combinar a viagem com o lado espanhol.
Quem chega do Brasil normalmente faz conexão por Paris e segue de avião ou de TGV. Uma alternativa esperta é voar até Bilbao, na Espanha, e alugar um carro: fica a pouco mais de 1 hora e o trajeto pela costa basca é lindo. Dentro da cidade, dá para resolver quase tudo a pé — a orla, o centro e o porto são próximos — e há ônibus urbanos e bicicletas de aluguel para os trechos mais longos.
Biarritz recompensa quem mistura os ritmos: uma manhã de surfe ou caminhada pelas falésias, um almoço demorado no mercado e o fim de dia vendo as ondas baterem no Rocher de la Vierge. É litoral francês com sotaque basco — e essa combinação é o que faz a cidade valer a viagem.
