Foi à beira do rio Santa Lucía Chico, sobre uma laje de quartzo conhecida como Piedra Alta, que o Uruguai declarou sua independência do Império do Brasil em 25 de agosto de 1825. Esse pedaço de rocha, hoje cercado por um parque arborizado que os uruguaios chamam de “Altar de la Patria”, está nos arredores de Florida — uma cidade de cerca de 33 mil habitantes no centro-sul do país, a pouco mais de 100 km ao norte de Montevidéu pela Ruta 5. Não é um destino de praia nem de fila de turistas: é uma parada de interior uruguaio, com peso histórico de berço da nação, uma catedral que guarda a padroeira do país e o ritmo pausado das cidades do campo.
Onde fica Florida e por que ela importa
Florida é a capital do departamento de mesmo nome, na zona de campos ondulados do centro do Uruguai, território de estâncias, gado e plantações. Ganhou seu lugar nos livros de história em 1825, quando o Congresso reunido ali assinou as três leis fundamentais que selaram a separação do Brasil e a união às Províncias Unidas do Rio da Prata. Por isso Florida é tratada como a cidade onde “nasceu” o Uruguai independente, e boa parte do que se visita gira em torno dessa memória. Para o viajante brasileiro, é também um retrato honesto do Uruguai profundo, longe do circuito Colônia–Montevidéu–Punta del Este.
O que fazer em Florida
O passeio obrigatório é o Prado de la Piedra Alta, às margens do Santa Lucía Chico, na saída da cidade. A laje de quartzo onde a independência foi proclamada está preservada ali, num parque tranquilo bom para caminhar, fazer piquenique e entender de perto o significado do lugar. Bem ao lado fica o Parque Robaina, inaugurado em 1910 com projeto paisagístico do arquiteto francês Carlos Racine: alamedas de árvores antigas, lago e um clima de parque europeu de início do século XX, muito usado pelos moradores nos fins de semana.
No centro, a Catedral Basílica Santuário da Virgem dos Treinta y Tres, na Plaza Asamblea, é a outra grande visita. Ela abriga a imagem da Virgem dos Treinta y Tres, padroeira do Uruguai, uma talha do século XVIII originária da capela do antigo povoado do Pintado. O interior reúne afrescos, vitrais e um órgão tubular dos anos 1930, e as portas de bronze, obra do escultor Belloni, narram em painéis episódios da história religiosa e civil do país. Foi diante dessa devoção que a coroação da padroeira aconteceu, em 1961, justamente na Piedra Alta.
Quem caminha pelo centro encontra ainda a praça mais antiga da cidade, onde se ergue o Monumento à Liberdade, do escultor Juan Ferrari, inaugurado em 1879 em homenagem à Declaração da Independência. Outra parada típica de Florida é a Capilla San Cono, de 1883, ligada a uma devoção popular intensa: todo 3 de junho, romeiros de várias partes do Uruguai vêm pedir proteção e, segundo a crença local, um pouco de sorte a San Cono. Para completar, vale reservar um tempo para simplesmente perambular pelas ruas baixas, tomar um mate na praça e entrar em algum café à moda antiga — o melhor de uma cidade de interior se descobre devagar.
Arredores: campo, estâncias e Cerro Colorado
O departamento de Florida é território clássico do turismo rural uruguaio. Espalhadas pelos campos há estâncias que recebem visitantes para passar o dia ou se hospedar, com cavalgadas, comida caseira e a rotina real de uma fazenda de gado. Pela região corre também o rio Santa Lucía Chico, com balneários simples e cantos de pesca apreciados pelos locais no verão.
Indo mais longe pelo departamento, vale conhecer a pequena localidade de Cerro Colorado e a zona de serras suaves que quebram a planície dos campos — paisagens despretensiosas, de horizonte aberto, ideais para quem alugou carro e quer rodar sem pressa pelo coração do Uruguai. Florida funciona bem, aliás, como ponto de apoio numa viagem de carro entre Montevidéu e o norte do país pela Ruta 5.
Gastronomia: o campo no prato
Estamos no coração da pecuária uruguaia, então a estrela é a carne. O asado — o churrasco lento feito na brasa, com cortes como tira de asado (costela), vacío e chorizo — é praticamente uma instituição, e nas estâncias da região costuma ser preparado na parrilla diante dos visitantes. Acompanhe com uma boa salada e pão, do jeito local.
Fora a parrilla, prove o chivito, o sanduíche-símbolo do Uruguai, com bife, presunto, queijo, ovo e o que mais couber; as empanadas de carne ou queijo, perfeitas para um lanche; e os doces à base de dulce de leche, presença certa nas confeitarias. E, claro, o mate: no Uruguai ele anda junto com as pessoas o dia inteiro, cuia na mão e garrafa térmica debaixo do braço — em Florida não é diferente.
Melhor época para visitar Florida
Florida tem clima temperado, com quatro estações bem marcadas. O verão (dezembro a março) é quente, com dias que passam dos 30°C, e é a melhor temporada para os balneários do rio e para a vida ao ar livre, embora janeiro e fevereiro sejam o auge do calor. Primavera (setembro a novembro) e outono (março a maio) costumam ser as épocas mais agradáveis para passear pela cidade e pelo campo, com temperaturas amenas e paisagens verdes. O inverno (junho a agosto) é frio e úmido, com mínimas que podem chegar perto de 0°C nas madrugadas — leve agasalho.
Há uma data especial: as comemorações de 25 de agosto, aniversário da Declaração da Independência. É quando Florida vira foco das atenções no país, com atos cívicos na Piedra Alta — vale a pena coincidir a visita se você se interessa pela história uruguaia, mas espere mais movimento e frio típico de inverno.
Como chegar a Florida
A porta de entrada para o viajante que vem do Brasil é Montevidéu. Do Aeroporto Internacional de Carrasco, ou da própria capital, Florida fica a cerca de 100 km ao norte pela Ruta 5, a estrada que corta o Uruguai de sul a norte. De carro, é pouco mais de uma hora de viagem por uma rodovia tranquila. Sem carro, a opção mais prática são os ônibus: a Terminal Tres Cruces, em Montevidéu, tem partidas frequentes para Florida ao longo do dia, num trajeto rápido e barato.
Quem entra pelo Brasil por terra costuma cruzar a fronteira em Chuí/Chuy (no litoral leste) ou em Rivera/Santana do Livramento (no norte). De qualquer um desses pontos dá para descer até Florida de ônibus ou de carro — de Rivera, inclusive, é só seguir a Ruta 5 rumo ao sul. Lembre-se de que a entrada no Uruguai exige documento válido e, para dirigir, carteira de habilitação reconhecida no país.
Dicas práticas antes de ir
- A moeda é o peso uruguaio; cartões são amplamente aceitos, mas tenha algum dinheiro em espécie para feiras, ônibus e cidades menores.
- Florida é uma cidade pequena e segura, fácil de explorar a pé no centro; para os arredores e estâncias, carro alugado faz toda a diferença.
- No verão, leve protetor solar e repelente para os dias junto ao rio; no inverno, agasalho de verdade, porque a umidade deixa o frio mais cortante.
- O Uruguai não é dos destinos mais baratos da região, mas comer em parrillas e confeitarias locais sai em conta perto das opções turísticas de Montevidéu e Punta del Este.
Florida não disputa com as praias de Punta del Este nem com o charme colonial de Colônia do Sacramento — e é justamente por isso que vale a pena. Aqui você encontra o Uruguai dos campos e da história, onde uma laje de quartzo à beira do rio carrega o peso da independência de um país inteiro. Para quem quer ir além do óbvio e entender de onde o Uruguai veio, é uma parada que rende mais do que o tamanho da cidade sugere.
